Você foi aprovado no mestrado ou no doutorado, publica, apresenta em congressos. Mesmo assim, sente que a qualquer momento alguém vai descobrir que você não é tão bom quanto parece. Ou o contrário: você sabe que entrega mais do que os colegas, mas sente que ninguém percebe, e cada correção do orientador soa como injustiça.
As duas experiências são comuns na pós-graduação e, às vezes, têm a mesma raiz: altas habilidades que nunca foram compreendidas. Este texto é para quem se reconhece em alguma delas.
Altas habilidades/superdotação descrevem uma forma diferente de aprender e processar informação: mais rápida, mais profunda e mais intensa. Isso é uma característica do funcionamento da pessoa, não uma opinião sobre si mesma.
Já a autoimagem é a leitura que a pessoa faz das próprias capacidades. E as duas coisas nem sempre caminham juntas. Há quem tenha a capacidade e não se veja assim. E há quem se veja assim sem que o seu perfil confirme essa impressão.
Na pós-graduação, esse descompasso fica mais visível. O ambiente é competitivo, a avaliação é constante e o trabalho de anos é julgado por bancas, pareceristas e orientadores.
Na avaliação neuropsicológica, aparecem com frequência dois caminhos que, de fora, parecem opostos, mas geram sofrimento parecido.
| Quem tem e se esconde | Quem se percebe acima da média e não se sente reconhecido |
|---|---|---|
Como aparece na pós | Adia a qualificação, reescreve o mesmo capítulo, evita apresentar resultados parciais | Discorda das correções, compara-se com os colegas, sente que o orientador não valoriza seu trabalho |
O que sente | “Vão descobrir que eu não sou tão bom” | “Ninguém percebe o quanto eu entrego” |
O que está por trás | Medo de ser visto | Dor de não ser visto |
O que ajuda | Exposição segura e gradual: mostrar o trabalho antes de estar “perfeito” | Retorno honesto e específico, que separa o que está bom do que precisa crescer |
O ponto central é que o que ajuda um perfil pode atrapalhar o outro. Elogios genéricos, como “você é brilhante”, não tranquilizam quem se esconde e alimentam a fragilidade de quem depende de reconhecimento.
Nenhum destes sinais, sozinho, indica altas habilidades. Juntos e persistentes, merecem um olhar mais cuidadoso.
Muitos adultos com altas habilidades só se reconhecem assim na vida adulta, às vezes justamente durante a pós-graduação. Até lá, costumam ter acumulado explicações equivocadas para o próprio funcionamento.
Isso acontece num ambiente que já pesa sobre a saúde mental. Na Bélgica, cerca de um terço de 3.659 doutorandos estava em risco de desenvolver um transtorno psiquiátrico (Revista Pesquisa FAPESP). Entender o próprio perfil não elimina essas pressões, mas muda a forma de atravessá-las.
Algumas atitudes fazem diferença, seja qual for o perfil:
A avaliação não serve para colocar um rótulo. Ela separa três coisas que costumam se misturar: o que é capacidade, o que é percepção e o que precisa de apoio.
Com esse mapa, fica mais fácil escolher estratégias de estudo, negociar prazos, entender a relação com o orientador e buscar acompanhamento psicológico quando necessário. A avaliação também investiga se há outras condições associadas, como TDAH ou ansiedade, que podem mascarar ou ampliar as dificuldades.
Se você se reconheceu em algum desses perfis, isso não é um diagnóstico. É um convite para olhar com mais cuidado para o seu jeito de funcionar.
No Centro Integrado Kátia Silva, em São Carlos/SP, realizamos avaliações neuropsicológicas para adultos que querem entender melhor suas capacidades e o que está por trás das suas dificuldades. Fale conosco pelo WhatsApp (16) 98177-2415 ou acompanhe o Instagram @katianeuropsi.